0 Radio Amadorismo (*) - Por Sr. Eugenio Rio (PY1BE)

(*) Artigo publicado na revista QTC, ano I, número 1, setembro/1934, páginas 29 e 30, editada pela LABRE.

O radio amadorismo traz com elle uma série de cousas novas e interessantes.

São sensações agradaveis, emoções suaves, ensinamentos de toda ordem, até philosophia.

Alguns annos atraz ninguem poderia prever, siquer sonhar, com essas sensações, com essas emoções!

No entretano ellas ahi estão, ao alcance de qualquer pessôa que possúa um apparelho para ondas curtas.

Quando travamos conhecimento com uma pessôa qualquer, no momento em que são feitas as apresentações,
trocamos rapidamente com essa pessôas as phrases de praxe, phrases ocas banaes, convencionaes, que nada dizem,
que nada exprimem.

Durante esse curto espaço de tempo, fazemos mutuamente um exame geral, rapido e portanto falso.

Uma gravata cujo nó não esteja feito de accôrdo com a móda, um vinco de calça desfeito, um calçado sujo de pó,
um nariz mal feito, uma bocca mal talhada, umas orelhas acabanadas ou tortas e as mais das vezes, lá se vae por
água abaixo, toda a bôa impressão que nos poderia ter ficado de uma conversação mais demorada ou de um exame não
levado a effeito com rigor.

Mas... o exame do "habito externo" uma vez feito e não sendo favoravel ao examinado, rapidamente nos desembaraçamos
delle e nos despedimos com a intima vontade de jamais encontrá-lo!

E como nos enganamos tantas vezes!

Tivessemos continuado a conversar com a pessôa apresentada, não nos deixassemos influenciar com o nariz torto, com o
calçado mal cuidado ou com a indumentaria extranha do individuo, e talvez, dahi a cinco ou dez minutos estivessemos
modificando a pouco e pouco os resultados do exame superficial feito.

Talvez tivessemos mesmo vontade de fazer do apresentado um novo amigo, diante da sympathia que sentissimos ouvindo-o

com attenção, diante da sua cultura ou da sua cordialidade.

Mas... como é possivel conhecermos uma pessoa sem vê-la?

Isso é o que consegue o radio-amadorismo.

Durante muito tempo, pessôas que se communicam diariamente, trocam idéas, acham á muitos kilometros de distancia, trocam
amabilidades, trocam favores e obsequios e por fim já sentem falta no dia em que por acesso não se fallam.

Sentimos falta desse, amigo desconhecido que diariamente nos faz uma visita á nossa residencia ao mesmo tempo em que nós
estamos na delle. Nenhum de nós se lembra de fazer a idéia da imagem do nosso amigo e portanto só a sua cultura, só a sua
gentileza, só a sua perseverança nos é conhecida.

Amanhã, surgirá por um accaso em nossa frente o nosso velho e desconhecido amigo. Será uma surpresa dolorosa si esse amigo
nos chegar de bótas cambadas, cabello grande ou barba por fazer? Não! Nada disso influirá, o amigo já é por demais estimado
para soffrer a diminuição pelo exame de sua figura. Uma vez estimado, uma vez querido, perdoaremos tudo de grotesco que elle
tenha na sua pessôa, porque estaremos perfeitamente identificados com a sua alma.

É assim o amor dos cégos; á assim a amizade dos radio-amadores.

Triste de nós quando chegar a época da televisão ao alcance de todos! Ou o amador feio deixa de usar tal invenção ou então
nunca mais obterá cambios para a sua estação.

Felizmente, parece-nos que a televisão não chegará tão cedo ao seu apogêu e assim, quando ella apparecer, diffundida por
todos os cantos, já o radio terá feito e concluído o seu serviço patriótico e humano de unir os amadores, ensinando-lhes que,
na vida, quasi sempre sômos victimas da apparencia e portanto não devemos julgar ninguém pelo seus aspecto e sim pelos dótes
de intelligencia e pela bondade da alma.

E assim, a cultura, os dótes de educação, o affecto, a cordialidade terão vencido os nossos olhos tão falsos em quem nos
confiamos tanto!

Isso será obtido pelo radio-amadorismo, como aliás estamos vendo diariamente.

Não fôsse o radio-amadorismo uma escola, alto expoente de civismo, passatempo útil e agradável e seria ainda, para sua grande
gloria, a aza branca da Paz e da Harmonia aberta sobre a Patria e a Familia.