Milhares de pessoas de cidades, estados e países diferentes comunicando-se
simultaneamente. Mas não estamos falando de Internet. É o radioamadorismo,
uma prática que veio do antigo telégrafo e ainda hoje mobiliza admiradores
de todas as idades pelo mundo. Para alguns, a paixão é tanta, que chegam a
passar 48 horas ininterruptas em radiotransmissões para participar de
concursos. Esse é o caso do engenheiro civil Márcio Humberto Carvalho,
vencedor do último Japan Amateur Radio Teleprinter Society RTTY (Jarts).
De uma sala reservada na sua casa, com diversos aparelhos de
radiotransmissão, televisão, computador e frigobar, Márcio conseguiu fazer
1.115 contatos com radioamadores de diferentes países em um fim de semana
sem parar de trocar mensagens.
E foi este desempenho que lhe garantiu o primeiro lugar mundial e brasileiro
em uma das quatro categorias do Jarts de 2003, do qual participaram cerca de
30 mil pessoas e cujo resultado saiu este mês.
Embora o concurso seja de uma modalidade que usa o computador como
ferramenta, Márcio explica a demora da divulgação dos vencedores.
Ela é devida à conferência dos dados enviados por cada competidor: ao final
do concurso, os organizadores recebem os logs - os registros que o programa
faz das ações por ele realizadas, com informações como data, hora e o
destinatário do contato.
Além do Jarts, ano passado Márcio participou de outros concursos onde também
obteve os primeiros lugares no Brasil e no mundo. Embora admita que esses
resultados lhe trazem satisfação e lhe dêem credibilidade entre os
radioamadores, ele frisa que este hobby não tem apenas os concursos como
atrativos.
O engenheiro garante que há outros motivos que lhe fazem passar
cerca de duas horas diárias diante dos aparelhos. ‘‘O radioamadorismo é um
hobby científico, um caminho que me leva a adquirir aptidão pessoal na
fascinante arte da electrónica como também uma oportunidade de me comunicar
com outros colegas radioamadores no mundo todo, sem esquecer das competições
nem do atendimento à comunidade’’, diz Márcio.
Quando fala de conhecimentos, Márcio refere-se às noções de física,
eletrônica e geografia que um operador de rádios transceptores
(que recebem e emitem mensagens) deve ter.
Já sobre os contatos com outros radioamadores, ele mostra a coleção de 30 mil
cartões QSL de mais de 200 países e ilhas (que também são consideradas países
no radioamadorismo) diferentes - os cartões QSL são trocados a cada novo
contato, para comprová-lo, e contêm informações como o indicativo
(identificação através de números e letras que mostra o país de origem) do
radioamador, seu nome, sua cidade e a data e horário do contato.
Márcio esclarece que a atividade é sem fins lucrativos mas os gastos podem
ser altos. Assim como os equipamentos, a confecção e o envio de cartões QSL
também são bancados pelo radioamador.
CIDADANIA
Falando sobre o atendimento à comunidade, Márcio explica que os radioamadores
freqüentemente estão envolvidos em ajuda à comunicação em casos como de
tragédias, inundações. Eles agem fazendo contato com autoridades e pessoas
isoladas, muitas vezes apoiando a Defesa Civil Local - o que é possível
porque, embora não sejam permitidas interferências sem motivos de urgência,
os aparelhos usados no radioamadorismo podem alcançar freqüências de
entidades como polícia e bombeiros e até mesmo aviões em pleno vôo.
Márcio conta que, depois do atentado de 11 de setembro de 2001, em Nova York
(EUA), no qual um radioamador participou dos primeiros contatos entre os
bombeiros e outras instituições envolvidas na ajuda às vítimas, foram criadas
redes nacionais de emergências, para atuarem quando os meios convencionais de
comunicação não funcionam.
Para Márcio, o que possibilita esse relacionamento é a ética, que, segundo
ele, é um dos pontos mais fortes entre os radioamadores.