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Arquivo Histórico do Radioamador Brasileirohttp://www.radioamador.org.bre-mail: ps7ahr@yahoo.com.br |
Este foi o texto da palestra proferida pelo Diretor de AN-EP no simpósio
"Rio Net" realizado, em outubro, pela Diretoria Estadual da LABRE-Rio de
Janeiro,
Não foi minha a escolha do tema desta palestra. Ele me foi imposto, sem
aviso prévio, pelo nosso dinâmico Diretor Estadual e meu muito querido
amigo Aragão. Sendo um dos raros remanescentes do Radioamadorismo da
década trinta, esperava eu que ele me designasse para falar sobre o
"Radioamadorismo de antigamente", convidando para o Porvir do
Radioamadorismo algum dos tão brilhantes jovens que hoje se dedicam às
mais atualizadas técnicas digitais das Radiocomunicações.
Mas cumprindo a escolha do nosso Aragão, tentarei, dentro de minhas
arcaicas limitações (Hl...), "Repensar o lugar e o porvir do
Radioamadorismo".
Para isto, creio ser necessário - sobretudo para melhor informação dos
que mais recentemente ingressaram na atividade - mencionar as
características e o lugar do Radioamadorismo do passado.
O Radioamadorismo do meu tempo - isto é, o das décadas anteriores a
cinqüenta - caracterizava-se pela necessidade de os próprios radioamadores
projetarem e construirem seus equipamentos. E que, na época, as indústrias
de equipamentos eletrônicos não consideravam rentável o mercado
radioamadorístico, e, por outro lado, eram relativamente simples os
projetos adequados a radioamadores, existindo no comércio de Eletrônica, a
preços acessíveis, os componentes necessários às montagens.
Com isto, o Radioamadorismo constituía verdadeira escola prática de
Radioeletricidade e Eletrônica que, a custo zero para os governos, supria
os países de excelentes técnicos para atividades profissionais em
organizações privadas, governamentais civis e militares. Também do
Radioamadorismo resultavam, a custo zero para os governos, incontáveis
radioperadores aptos a desempenhar-se com eficiência nas mais difíceis
condições técnicas e operacionais. Tudo isto se evidenciou quando da
SegundaGuerra Mundial, em que nos serviços de radiocomunicações, civis e
militares, predominaram radioamadores.
Outro fato que deu relevo ao Radioamadorismo nas décadas a que me refiro
resultava da deficiência dos serviços públicos de telecomunicações em
países menos desenvolvidos e de grande extensão territorial. Quantas e
quantas vezes fui testemunha do grande auxílio prestado pelos radioamadores
brasileiros para suprir comunicações virtualmente impossíveis através dos
sistemas públicos disponíveis naquela época; e quantas e quantas vidas
foram salvas graças à Rede Nacional de Radioamadores!
Outro aspecto, desde os primórdios da Radioeletricidade, foram os
descobrimentos e aperfeiçoamentos, nela devidos a radioamadores, sobretudo
nos tempos em que nem organizações privadas nem os governos investiam
apreciavelmente em pesquisas. Até o advento da Segunda Guerra Mundial, quase
tudo o que se inventou ou aperfeiçoou em tal área teve origem em
experimentos realizados por amadores.
Destas relevantes características e que resultaram, nas Conferências,
Convenções e Regulamentos internacionais de Radiocomunicações, as
concessões e, mesmo, os estímulos concedidos ao Serviço de Radioamador,
sobretudo a atribuição de numerosos segmentos de freqüências para seu uso
exclusivo.
Contudo, as características daquele Radioamadorismo anterior à segunda
conflagração mundial estão hoje bem diferentes. Raros são hoje em dia, os
radioamadores que projetam seu próprio equipamento, que tornou-se bem mais
complexo e menos acessível a quem não possua formação técnica especializada.
Também tornaram-se cada vez mais difíceis e caros os componentes necessários
às montagens radioamadorísticas - fazendo com que a grande maioria recorra a
transceptores e outros equipamentos produzidos industrialmente.
Por outro lado, tanto no Brasil como na maioria dos países em
desenvolvimento, os sistemas públicos de telecomunicações melhoraram
consideravelmente, assim reduzindo os casos em que é indispensável recorrer
à rede de radioamadores.
Tudo isto pode hoje representar um grande perigo para o tratamento
dispensado ao Serviço de Radioamador nas Convenções, Conferências e
Regulamentos internacionais de radiocomunicações; pergunta-se: se não há
aprimoramento técnico ou operacional, e não mais são indispensáveis os
radioamadores para suprir a demanda rotineira dos serviços públicos de
telecomunicações, quais as razões que irão justificar a preservação para
uso, pelos radioamadores, das diversas faixas que ainda Ihes são asseguradas
e que são ferozmente cobiçadas pelos interesses de poderosos outros serviços
de radiocomunicações?
Está certo nosso estimado amigo Aragão: urge repensar o lugar e o porvir do
Radioamadorismo. Uma rede de "apertadores de botões em caixas pretas que
utilizem apenas técnicas tradicionais e já plenamente difundidas e dominadas,
não justifica c, tratamento e estímulo ao Serviço de Radioamador. Que fazer,
então, para assegurar o lugar e o porvir do Radioamadorismo?
Esta é uma preocupação de muitas entidades e pessoas que praticam e prezam
nossas atividades. E nada melhor para expressá-la do que um editorial do
primeiro periódico radioamadoristico lido "no espaço", através de satélites
projetados, construídos, orbitados e operados por radioamadores: "Space
News". Tal editorial, "Radioamadores dos Anos 90" tem sido reproduzido, em
diferentes idiomas, em vários órgãos oficiais de entidades
radioamadorísticas, dentre as quais Radio REF", do Réseau des Emetteurs
Français de onde passaremos a mencionar alguns tópicos.
Os Radioamadores sempre constituíram um grupo de experimentadores no
nascedouro de inovações. Os fundamentos e finalidades do Serviço de
Radioamador, definidos pela regulamentação, destacam o aperfeiçoamento das
tecnologias da Telecomunicação. A medida que adentramos os anos 90, torna-
se cada vez mais importante que todos os radioamadores participem do avanço
das comunicações sem fio, sem o que eles se arriscam a perder o espectro de
freqüências em favor de interesses comerciais.
"A cada dia, nosso mundo torna-se cada vez mais orientado para o 'digital'.
Sucede que as telecomunicações numéricas exigem amplas faixas passantes e
que amplas faixas significam o emprego de freqüências em UHF e microondas;
Com isto, viram os radioamadores aumentarem os interesses comerciais que
lutam por tomar 'nossas' tão interessantes faixas de UHF e de microondas.
A recente perda, nos EUA, da faixa de 220 MHz em beneficio do 'United Parcel
Service ' é um perfeito exemplo da facilidade com que uma faixa de amadores
subtilizada pode ser perdida em favor de interesses comerciais.
"Para evitarem novas perdas do nosso espectro de freqüências, é importante
que os radioamadores justifiquem a atribuição que Ihes é assegurada.
Contudo,preencher uma faixa com estações repetidoras de FM não basta para
justificara preservação da atribuição de uma faixa.
"Isto não deu certo para os 220 MHz e não dará certo para nenhuma outra
faixa, 'Povoai' neste caso significa um aproveitamento sério do nosso
espectro de UHF para desenvolver novas modalidades de comunicação até agora
impossíveis, impraticáveis ou não autorizadas nas freqüências baixas. Isto
quer dizer tecnologias de comunicação modernas por "packet" de grande
velocidade redes TCP/17P, comunicações por satélite, reflexão lunar o som
digital, a transmissão de imagens - para citar apenas uns poucos exemplos.
Todas estas modernas técnicas de comunicação são interligadas por um
elemento comum: o microprocessador. A classe de licença radioamadorística
'sem Morse' foi instituída nos EUA pela FCC para atrair ao Radioamadorismo
os adeptos dos microprocessadores e incentivar a experimentação acima dos
50 megahertz.
Infelizmente, a maioria dos novos licenciados não foi atraída para novas
atividades que não o emprego de repetidores de FM em fonia, o que faz
aumentar ainda mais o congestionamento de faixas já saturadas.
O crescimento numérico nunca foi realmente um problema do Serviço de
Radioamador. Reter é o verdadeiro problema: estima-se que apenas 20% dos
radioamadores são 'ativos'- entendendo-se por 'ativos' os que liguem seu
receptor pelo menos uma vez por semana. Do momento em que 80% dos
possuidores de uma licença de amador perderam todo interesse pelo
Radioamadorismo, como querer atrair "sangue novo"
A solução talvez esteja na maneira pela qual os amadores se comuniquem. A
maioria dentre nós está satisfeita em se limitar às corriqueiras
comunicações vocais, coisa que poderemos fazer igualmente bem com a Faixa
do Cidadão ou o telefone. A verdade é que Radioamadorismo é MUlTO MAlS que
a mera comunicação vocal ponto-a-ponto. Embora a maioria dentre nós esteja
de acordo em admiti-lo, poucos são suficientemente corajosos para explorar
atividades além das normas estabelecidas.
A inovação requer uma ruptura com a tradição e com as normas estabelecidas.
E será somente graças às inovações que o Radioamadorismo poderá realmente
crescer e prosperar O mais inovador potencial que se pode atualmente
encontrar é no domínio de atividades como:
- Os satélites OSCAR
-As experiências de comunicações a bordo de naves espaciais ('Shuttle
Amateur Radio Experiments');
- O Rádio-Pacote ('Packet Radio')
- A transmissão de imagens.
"Queixar-se de que estas atividades são 'complicadas demais' é simplesmente
absurdo: os alunos de escolas receberam telemedidas do OSCAR 17 (o DOVE do
nosso notável colega PY2BJO, Junior Torres de Castro) e estudaram sua
velocidade de rotação.
"Alunos de escolas, como os do Weber State College, de Utah, e da University
of Surrey, da Inglaterra, estudaram e construíram seus próprios satélites
de amador e os colocaram em órbita terrestre.
"Grupos de alunos de outras escolas estudaram experimentos
radioamadoristicos em satélites em órbita ou operados em naves espaciais.
"À medida que avançamos nestes anos 90, torna-se cada vez mais relevante
que exploremos estas atividades. Só assim poderemos efetivamente contribuir
para o crescimento e o aprimoramento do radioarnadorismo.
"Portanto (conclui o editorial) ASSUMAM um papel na história e explorem os
novos horizontes que o Rádio Ihes oferece. Vocês serão felizes de o haverem
feito!
O que acabamos de ler em SpaceNews coincide plenamente com nossas
considerações iniciais: para sobreviver e garantir as faixas que
internacionalmente Ihe são atribuídas não pode o Radioamadorismo estacionar-
em rotineiras comunicações "vocais". Não digo que sejam elas drasticamente
eliminadas, pois são úteis em alguns aspectos, tais como o de
confraternização humana e a troca de idéias sobre experimentos técnicos e
operacionais. Mas devem ser complementadas, prioritariamente, pelos métodos
digitais referidos em SpaceNews e pelas modalidades operacionais - satélites
reflexão lunar ou por chuva de meteoros, e similares - que permitam melhores
conhecimentos sobre propagação radioelétrica.
No Brasil ainda são poucas as iniciativas neste sentido. Dentre as "LABRES",
a do Rio de Janeiro - desde quando dirigida por PY1EWN seja dito - é um
raro destaque na prática e incentivo às comunicações digitais. Há, em
Blumenau, Santa Catarina, um grupo de radioamadores dedicados à prática e
a difusão do "Packet", inclusive produzindo, através de indústria eletrônica
local, "modems" e outros periféricos para estações "informatizadas".
Outro exemplo é uma pequena entidade radioamadorística do Rio Grande do
Sul - o "Grupo de Radioamadores G9+" - que tem se empenhado na divulgação
de atualizadas atividades de Radioamadorismo. Em um informativo especial
editado em julho último intitulado NO Radioamador do Próximo Milênio",
PY3IT, Dirceu PIVATTO da Silva, fez uma excelente análise do passado,
presente e, sobretudo, futuro do Radioamadorismo, que poderia, com imensa
vantagem, substituir as ineptas palavras que Ihes estou dirigindo.
A certa altura diz Pivatto: "Se as comunicações telefônicas atuais abalaram
o sentido do radioamadorismo, o microcomputador e a informática, colocarão,
já antes do terceiro ,milênio, aquela clássica tipologia de Radioamadorismo,
em algum museu. (...) Quem não aderir ao microcomputador, cairá em quadro
extinto".
Pivatto registra a reação de muitos radioamadores aos prognósticos sobre
suas previsões acerca da necessidade de atualização operacional do
Radioamadorismo. Em 1989 em palestra que proferiu em Ijuí em um Rancho do
Radioamador Gaúcho, ele diz que quase foi agredido ao demonstrar a
impressionante presença da Informática nas atividades radioamadorísticas.
E numa entrevista técnica, apresentada pelo Grupo G9+ após um QTC falado de
PY3IM, o apresentador era interrompido a todo instante por radioamadores
inconformados, que berravam: "lsto é uma barbaridade! Isto não é
Radioamadorismo! Querem destruir o Radioamadorismo!
"O Radioamador do Próximo Milênio" é um trabalho que merece ser lido.
Sugiro que o peçam ao Grupo de Radioamadores G9+ cujo endereço é: Rua
Hoffimann, 606 - apt 402, 90220-170, Porto Alegre, RS. Também sugiro que
anexem a solicitação uma etiqueta auto endereçada e uns 5 selos de tarifa
nacional para cobertura do custo de reprografia e postagem.
Para concluir este meu despretencioso "papo", seria conveniente que todo
radioamador desse um "exame de consciência", no sentido de apurar se está
se esforçando para preservar o conceito que garantiu ao Serviço de
Radioamador as prerrogativas até agora conquistadas no Regulamento
Internacional de Radiocomunicações ou se, ao contrário, é dos que (no
dizer do Pivatto) ao ouvirem ou lerem advertências sobre a necessidade de
atualizar-se de suas técnicas operacionais. exclamam: 'Comunicações
digitais? Isso é um monte de besteiras!'.
Eu próprio, ao coligir estes dados, fiz um exame de consciência e cheguei
a uma assustadora e triste conclusão: Nem como radioamador nem como editor
de uma revista de Radioamadorismo, tenho praticado e contribuído eficazmente
para a digitilização de nossas modalidades operacionais. Como radioamador,
tem sido puro comodismo: embora possuindo um bom PC (Hl...), não me dei ao
trabalho de instala-lo no meu "shack". E como editor, meu raciocínio vinha
sendo este:
- Os adeptos de técnicas digitais não recorrem a modesta AN-EP para
atualização de seus conhecimentos: vão diretamente as revistas estrangeiras
do chamado "primeiro mundo", onde são priorizadas.
Contudo, a ligeira pesquisa que precedeu esta nossa apresentação fez-me ver
o quanto, como editor, tenho estado equivocado. Vejo que embora
evidentemente os já praticantes da comunicações informatizadas e digitais
não possam recorrer a AN-EP para ampliação ou atualização de seus
conhecimentos, tenho o dever de motivar os demais leitores para tais
técnicas, bem como o de proporcionar aos já praticantes um ponto de
encontro para troca de idéias com seus colegas.
Dentro destas diretrizes, a que hoje me proponho, conclamo os presentes
- dentre os quais os verdadeiros "cobras" nessas técnicas atuais a
divulgarem, em nível totalmente acessível a simples "operadores de caixas
pretas e os modos práticos de iniciação em tais técnicas operacionais e
a relatarem as gostosas emoções delas obtidas.
E, finalmente, conclamo as LABRES de outros Estados e, sobretudo, a LABRE
Nacional a tomar iniciativas, como as da LABRE Rio de Janeiro, para
divulgação e estímulo das atividades técnicas e operacionais que, só elas,
poderão assegurar o porvir do Radioamadorismo não apenas no Brasil, mas
sobretudo no âmbito de futuras Conferências na União Internacional de
Telecomunicações.
AN/EP- V. 104, No 2, p 125, out/dez/92.