LUIZ ALVES DA VISITAÇÃO, PY1MC

PY1AE - Luiz Onofre
O veterano que vem honrar esta nossa galeria de E-P é um dos pioneiros do Radioamadorismo na terra de Araribóia, admirado e respeitado pelo seu modo de ser: amigos de todos, humano, prestativo e sempre capaz de uma palavra orientadora. O "curriculum" que apresentamos a seguir é um resumo de uma entrevista informal, concedida ao nosso companheiro PY1PY, Léon, numa visita por este realizada. O "entrevistado" (sem saber que o era!), Luiz Alves da Visitação, PY1MC, assim começou: "O meu interesse pelas ondas eletromagnéticas manifestou-se muito antes do nascimento da 'mamãe Antenna'... Através da leitura de livros técnicos franceses, muito em voga naquela época - 1918/1920 -, eu e um colega de estudos preparatórios, Nelson G. M. Maia Forte (atualmente aposentado como engenheiro do Quadro de Engenharia do Estado e por motivos não sabidos por nós não veio a se tornar, também, radioamador), assimilando conceitos ali expostos, realizamos com 'bobinas Ford' as primeiras experiências de 'produção' daquelas ondas. Linhas de pescar (de latão), fios de cobre encapados com algodão ou seda, 'selfs' cilíndricas ou em 'fundo de cesto', envernizadas com goma laca, chaves de contato, condensadores' dielétricos de vidro ou papel parafinado e até variáveis, tudo era fruto de um artesanato incomum. Quando diziam 'fulano é radiomaníaco', a informação correspondia a um julgamento pouco lisonjeiro quanto à sua integridade mental!... Coesores de limalhas, vávulas eletrolíticas, galena da África do Sul, carborundum, etc., e apenas ouvíamos sinais matraqueados, rouquenhos, nada musicais, emitidos em ondas longas por estações de T.S.F., como a do Arpoador, fornecendo sinais horários. Os primeiros resultados mais evidentes da geração de ondas foram conseguidos com o emprego de uma 'lâmpada' esférica francesa, de três elementos, montada em circuito 'ultra-audium'. Evoluindo, passamos a dispor de válvulas americanas, tipo UX-201A, ainda grandes consumidoras de corrente de aquecimento. As pilhas improvisadas (Bunsen ou Leclanché), não aguentando o serviço, obrigaram-nos à montagem e 'formação' de acumuladores 'Planté'. As cargas eram efetuadas por células retificadoras eletrolíticas, utilizando soluções de bicarbonato, sulfato ou borato de sódio. Os eletrodos eram o chumbo, carvão ou alumínio. Em boa hora a Philips lançou no mercado uma série de válvulas de baixo consumo e, assim, as A-409, A-115 e B-406 passaram a ser as preferidas. Com essas válvulas, em circuitos regenerativos Reynartz, Hartley ou Schnell, já ouvíamos, a contento, em ondas médias, as incipientes Rádio Sociedade do Rio de Janeiro e Rádio Clube do Brasil, como também, em ondas curtas, várias estações estrangeiras e alguns amadores pioneiros, aos quais invejávamos. Com a evolução das válvulas, permitindo a utilização direta da corrente alternada no aquecimento catódico e concomitante aperfeiçoamento das retificadoras, tornando mais fácil a obtenção de altas tensões para os anodos, cristalizou-se a idéia de transmitir, o que dependia de autorização especial do antigo D.C.T. (Departamento de Correios e Telégrafos). Em 1935, por proposta do sempre lembrado PY1AH, Darly, passei a integrar o quadro associativo da LABRE, sob a matrícula n° 139. Aí estabeleci os primeiros contatos com os 'papas' da época... Hoje, são 'cobras'... Em 26 de junho de 1936 fui licenciado pelo D.C.T., já existindo várias firmas negociando componentes radioelétricos. Lembro-me, entre outras, de F.R. Moreira & Cia., Mestre & Blatgé (atual Mesbla), M. Barros & Cia., Wilmann Xavier, Miguel d'Ajuz e Ligneul Santos & Cia. que, vindo do Largo da Carioca, instalara-se na Rua Chile n° 23. Era aí que o nosso grupo se reunia, à tarde, usurpando um acomodativo conjunto de vime, em cuja mesa redonda com tampo de vidro eram desenhados e discutidos os 'circuitos' em experiência. O chefe da firma era o saudoso Georges Ligneul (ex-PY1AHA), que aliava a sua qualidade de 'gentleman' à de excelente orientador. Mais tarde revelou-se um habilidoso cedablista e exímio 'caçador de figurinhas'. Minha primeira grande alegria veio quando, havendo terminado a montagem de um pequeno transmissor, lancei um tímido 'chamado geral' em 40 metros, sendo atendido, prontamente, por PY9AL, Milton Pereira, um jovem radioperador de Alfenas (MG), que me recebia em boas condições! Tratava-se de uma RE-604, modulada em grade (sistema Telefunken), microfone a carvão e antena marconiana. Desde então, as minhas incursões no éter físico tornaram-se freqüentes, sempre modificando os equipamentos e em busca de novas emoções. Certa vez, experimentava a excelente e inesquecível válvula 6L6, como osciladora a cristal, em circuito muito gabado na época pelo seu rendimento, quando ocorreu-me a idéia de que o conjunto poderia ser fácil e econômico transformado em transmissor de fonia, com o simples acréscimo de uma válvula que, em série com alimentação de 'screen', seria a moduladora... Assim nasceu o 'caxinguelê' (nome de batismo, dado pelo nunca esquecido Eugênio Aguiar - ex-PY1HK -, de espírito comum e fabricante dos bons cristais 'HK'). O pequeno e eficiente transmissor de três válvulas foi utilizado durante muitos anos, especialmente pelo que no início de suas atividades não desejavam equipamentos caros ou de difícil ajuste. Vários companheiros o montaram como 'reserva-portátil'. Por essa época, os 'handbooks' editados para radioamadores não forneciam dicas para o aproveitamento das 'screenies' no processo modulador. Certa ocasião, resolvi empregar na 'saída' um paralelo de 4 válvulas F-443 (grandes pentodos de áudio da Philips), aplicando a energia moduladora em suas 'screenies' através de um transformador adequado. Depois de muitos ajustes efetuados com carga fictícia, fui bem sucedido. Inúmeros comunicados, inclusive transoceânicos, foram realizados, sempre obtendo boas reportagens. Numa feita, num jornal de rádio argentino, publicava como novidade o transmissor de um radioamador chileno com a mesma disposição das F-443, já adotada, antes, por mim... O fato se explica porque, em comunicados com os colegas sul-americanos, eu sempre fornecia detalhes do circuito empregado... Já possuindo um bom receptor - um Meissner, 'Trafic Master' -, pude estabelecer numerosíssimos contatos na faixa dos 40m, em fonia, com quase todos os países da América do Sul, especialmente Argentina e Uruguai, Ilhas Canárias, Ilha Ceuta (Marrocos), Espanha, Portugal, Antártida, etc. Lembro-me que foi de grande e recíproca emoção o comunicado com um padre, radioamador português, que, ao despedir-se e depois de muito elogiar o Brasil, que ele sempre desejara conhecer como 'produto' lusitano, encerrou o câmbio com esta frase: 'Portugal é a minha vida e o grande mar, minha alma!'. Em ASO efetuado com um colega que servia numa Base Científica às portas da Antártida, desejei que, a despeito do frio ali reinante, tivesse ele uma noite tranqüila e reparadora... Retornando para o finalíssimo, fez-me ver que, só por milagre (!) o meu voto seria realizado, pois há um mês, naquela região e latitude, o Sol não se ocultava... faltando, ainda, muito para que se iniciasse o ciclo das longas noites!... Fui muito ativo nos primeiros anos, quando tive a ventura de fazer muitos bons amigos, cujos indicativos não cito, pelo receio de que a memória possa trair-me, após tanto tempo. Obrigações profissionais e funcionais foram responsáveis por uma longa ausência da atividade radioamadorística; agora, em gozo de prêmio de aposentadoria por tempo de serviço, estou retornando, cautelosamente, porque não desejo tropeçar nos transistores, zeners, 'LEDs', triacs, integrados, etc., e, nesta oportunidade, quero dirigir meus agradecimentos aos que, por bondade, me aturaram e me proporcionaram , em troca, tantos momentos de alegria. E, ao mesmo tempo, render meu preito de saudades àqueles que, pelas inexoráveis mãos do destino, passaram um QRT definitivo..." N. do R. - O colega e xará que vem de enriquecer o nosso GV é Engenheiro Agrônomo, teve como primeiro indicativo PY1IC, reside em Niterói - sua terra natal - e de há muito estava sendo aguardado pelos integrantes do GV para receber as homenagens que bem merece e aquele nosso particular 73!
FONTE: Revista Eletrônica Popular, janeiro/1980, pags. 110-112.