CRAJE – Crônica de um Quarentão

Eu nasci em 1969, poucos meses antes do homem chegar a lua, o Brasil fervia com os preparativos da copa no México de 70, a ditadura militar estava em seu periodo mais duro… Que infância foi aquela! … Eu era uma criança que podia ter tudo, meus pais tinham um enorme amor por mim, eles eram muito importantes na cidade, influentes e bem sucedidos, podiam me dar do bom e do melhor. Com menos de dois anos de idade me brindaram com um quintal com árvores enormes, mais de 2 mil metros quadrados só para mim, ao lado do antigo camping do CCB e a menos de 500 metros do centro da cidade de Joinville. Quando eu tinha mais ou menos 3 para 4 anos de idade, construíram para mim uma casinha, e que casinha! … Com tamanho de sobra para que eu crescesse e aparecesse. Nesta casa eu poderia festejar meus aniversários com muitos amigos, com conforto e sem problemas de espaço, tinha até uma ampla área de estacionamento, arquitetura assinada por um grande arquiteto catarinense dos anos 70 e tudo o mais. Logo, parte dos meus brinquedos foram colocados no alto de uma bela torre e durante algumas noites da semana e também nos finais de semana lá vinham meus amigos… meu pátio ficava cheio de Variants, Fuscas, TLs, Opalas, Brasilias e até carros importados… Aos sábados era sagrado – meus amigos vinham ficar comigo e desfrutar da minha casa de arquitetura arrojada, minhas árvores, do cheiro de floresta quase no centro da cidade, do barulhinho da corredeira da centenária captação de água de Joinville… Ficavam batendo papo e brincando com os rádios, meus brinquedos prediletos. Eu me sentia muito feliz pois, de alguma forma, sabia que tinha nascido para isto.

Certamente devia causar inveja na meninada da minha idade, tanto da minha cidade como de muitas outras, pois que criança tinha o que eu tinha e quem poderia dizer onde eu poderia chegar só pelo que já havia conquistado em tão pouco tempo de vida. Tempos incríveis aqueles… eu era o centro das atenções… festas frequentes, almoços comunitários, contestes nacionais, internacionais, visitas ilustres, políticos, candidatos a cargos públicos, famílias inteiras de amigos vinham ficar comigo nas noites de quarta, quinta, sábados e tardes dos domingos.

Sem dúvida eu era um menino com cara de alta sociedade, mas tinha amigos em todas as classes sociais, pois meu brinquedo predileto não via cor, raça ou dinheiro no bolso… mas muitos tinham até receio de se aproximar de mim, tamanho era o luxo da minha casa, pois lá nos idos de 1975, eu certamente era o único menino com uma casa linda e nova só para mim, especialmente construída para minhas brincadeiras com os amigos.

Me lembro bem que, ainda meio menino, já me metia em assuntos de gente grande… ajudava na localização de pessoas, colocava pessoas de outros estados e países via rádio falando ao telefone com parentes, ajudava encontrar remédios raros e vitais para doentes, auxiliava no contato de pessoas sem comunicação devido a enchentes e tempestades… eu fazia muita coisa legal… todo ano aparecia uma novidade, um evento, uma mobilização… que anos foram aqueles!

Sem perceber fui deixando de ser criança, aos 14 ou 15 anos de idade já era um jovem rapaz quando comecei a perceber que muitos amigos que eu conseguia, depois de um tempo me abandonavam… deixavam de ir me ver… e quando iam me ver eu logo lhes perguntava: – Porque diabos você esta tão sumido? As vezes as respostas eram vagas e eu ficava sem entender, mas o que mais me angustiava era algumas respostas do tipo: – Eu não venho mais te ver porque um outro amigo seu não é mais meu amigo, não gosto mais dele, ele agiu errado comigo… Nisto eu perguntava: – Mas que culpa tenho eu? Porque você não é mais amigo deste meu outro amigo, é motivo para não querer mais saber de mim, me visitar, contar por onde anda, como esta indo,… não posso mais contar contigo?

Mas naquela época de juventude a vida era frenética, trazendo sempre novas pessoas, tinha uma turma legal, os faixas do cidadão, muitos acabavam se tornando radioamadores e se achegavam, uns ficavam pouco comigo, outros mais tempo… já na minha fase adulta, no alto dos meus vinte e poucos anos, o mundo já era bem outro, tinha gente que dizia: – Este seu brinquedo já não tem mais graça, agora o negócio é um tal de TK82, CP300, Sinclair 8085 que rodavam um tal de CPM… este negócio de rádio, válvula, manipulador, radioteletipo já era… Eu nem ligava muito, pois achava que o meu brinquedo nunca poderia ser substituído por nada.

Me lembro bem que já adulto, entre meus 25 e 30 anos, percebi que vagarosamente meus amigos escasseavam, minha casa já não ficava tão cheia e raramente tinha crianças correndo em meu pátio. Não me preocupava, pois sabia que os adultos tem menos amigos que os adolescentes, é natural, mas a qualidade das amizades deviam ser melhores pois já tinha amizades de décadas. Mas foi justamente por esta época que comecei a sentir o peso da idade, pois muitos dos meus pais já não estavam mais comigo, outros apenas se afastaram de mim… será que fiz alguma coisa errada? … por mais que eu soubesse que isto era natural, não estava preparado para perder meus pais, não tão cedo, sentia muita falta da atenção e do cuidado deles, mas tinha que entender que eles não seriam eternos.

Entrei na minha década dos 30 anos tentando sempre me renovar, já haviam me avisado que minha brincadeira não tinha mais graça, mas já haviam passado os PC XT, os AT, os 286 que eram maravilhas modernas e mesmo assim continuavam a gostar do meu velho e bom radio. Até porque na mão dos radioamadores os PCs viraram máquinas de Logbooks, Manipuladores de CW, Decodificadores de Modos Digitais… saquei que este tal de PC não era um inimigo, era um aliado… mas mesmo assim sentia que minha sala ficava um tanto mais vazia. Seria um sinal dos tempos modernos?

Me lembro como se fosse hoje a conversa na minha sala sobre as BBSs, agora era possível a troca de programas de computador através da conexão com um servidor e termos infinitos programas em nosso poderoso HD de 270MBytes nos nossos PCs interligados pela poderosa rede Novell 1.1 com cabo coaxial. Mas nada me amedrontou tanto como quando, em uma tradicional reunião de quarta-feira a noite, alguém com voz de sentença disse: – Já temos no Brasil algumas escolas militares e pesquisadores de universidades ligados a Internet e eles podem se comunicar e trocar arquivos livremente, se isto pegar mesmo, ninguém vai querer ficar fora dela… acreditem… o radioamadorismo esta com seus dias contados! O mundo desabou para mim.

O tempo foi passando e por um motivo ou outro a minha sala de vistas e meu shack ficavam menos cheios. A internet era acessada por modens de incríveis 56Kbps de velocidade máxima, cabearam a cidade inteira para a TV por assinatura, as pessoas passaram a trabalhar mais horas por dia, as crianças passaram a exigir ir ao parque temático e ao shopping center nos finais de semana… deve ser isto, pensei… as pessoas estão sem tempo para virem aqui me visitar, mas quando elas tiverem um tempinho virão, com certeza…

Numa manhã de Janeiro de 2002 fui surpreendido por uma cobrança de imposto colocada embaixo da minha porta… como? Desde que foi construída a minha casa, nunca havia sido cobrado nenhum imposto, sempre soube que tinha valor reconhecido de utilidade pública por Lei Municipal e Estadual, desde que tinha um ano de idade. Fiquei muito apreensivo com esta novidade, pois até então nunca havia tido que arrecadar dinheiro para poder pagar o direito de continuar em minha própria casa, não me foi dado o direito de gerar dinheiro através de minhas ações, sempre me disseram para que não me preocupasse com renda ou lucro, pois minha função era social e pública… pensei… Ok, e agora?

O tempo foi passando, passando… ouvi muitas opiniões, mas ninguém me trouxe o conforto que precisava, sinto que tenho menos amigos do que gostaria ou poderia ter… mas, é a vida… hoje me lembro que estou completando meus 42 anos de idade. Uma jornada e tanto, não? Principalmente para um cara como eu, em um País como o nosso em que pouca coisa dura tanto tempo.

Engraçado que muitos dos meus amigos nasceram 15 ou 20 anos depois de mim, mas por alguma razão, eles não vêm nenhum problema em nossa diferença de idade, aparecem sempre em minha casa, dão risada alto, fazem bagunça, fazem perguntas e através destas perguntas me fazem sentir útil e vivo, pois sei que tenho algo (talvez muito) a ensinar sobre nossa estranha mania de brincar com antenas, cabos, rotores, softwares, rádios, lineares e velhas amizades.

Pensando hoje, do alto dos meus 42 anos de idade, acho que não sou nem novo e nem velho, posso até dizer que estou no meio da vida… talvez não, quem sabe? Mas não posso deixar de ver o futuro com esperança de um lado e receio de outro.

Pode ser que continue chegando sempre gente nova em minha sala, dispostos a aprender, ensinar, compartilhar conhecimento e dispostos a cuidarem um pouco de mim, desta forma, o ciclo continuará por muito e muito tempo e eu sempre estarei feliz com meu destino.

Por outro lado, sei que se um dia não houver nem um pequeno grupo de amigos para zelar por mim, estarei acabado definitivamente, mas espero que se isto acontecer um dia, não me deixem acabar como um velhinho abandonado em um asilo, sem ninguém para compartilhar meus últimos dias, relembrar os grandes momentos, contar velhas histórias, ficar com meus QSLs… sabe, prefiro morrer de súbito a uma lenta agonia do abandono, mas para ser sincero, por este lado procuro nem pensar.

CRAJE – PP5CIT – em seu 42º Aniversário

PP5AX – Carlos J. M. Cintra – 22/03/2011

SE você leu esta crônica até aqui, certamente não vai deixar de ir CUMPRIMENTAR SEU CLUBE na festinha de aniversário dia 26/03 (SABADO) a partir das 19:30h VAI TER UM SABOROSO GALETO NA BRASA. SERA ENVIADO UM COMUNICADO COM OS DETALHES.

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